sexta-feira, 6 de julho de 2012

Eden revisited (I)

(para as duas)

No princípio, era Lilith a contraparte de Adão — e os dois tinham-se companheiros complementares por tempos em que o próprio tempo era ainda bebê, cambaleante nas primeiras tentativas de levantar-se do eterno engatinhar a que se lançara, uma vez fóra do útero oceânico de sua mãe sempre virgem. Caminhavam juntos por estradas novas, desbravando espirais cromáticas e gerando saltos quantos por sobre outros si mesmos. Rumo ao não-rumo, os dois bandeirantes de uma pátria única e humana trilhavam a perpétua transmutação do mundo, e sorriam em face ao novo, que lhes era sempre. Tinham por pavimento a água do rio, onde flutuavam em plena aceitação das correntezas e bifurcações e afluentes e mais. Sua jangada não era outra senão a própria carne de Deus, impulsionada por remos numinosos e guiada pelos lemes do espírito. Mapeavam-se, a si e à trilha, através do manto de luz em pontos que cobria o cair da escuridão, de onde tantas vezes cantos e corpos e outros antepassados lhes guiavam a alma. Todos os dias adormeciam embalados pelo canto da Natureza, exuberante de cores e fragrâncias tantas, que olhos e narinas eram êxtase em meio a tamanho banquete sensório-vital. Acordavam pelo chamado sereno de um Sol sempre amoroso, que tinham por pai — e lhes ensinava, sem palavras, a arte de arder em doação toda de si a outro. E assim seguia a vida primeira de um canto qualquer que, por falta de opção ou costume, cantamos por Eden.

[continua...]

Rio, 6 de julho de 2012

Nenhum comentário: