domingo, 15 de julho de 2012

Eden revisited (II)

(para as duas, ainda)

[parte I: http://www.omundoqualquer.blogspot.com.br/2012/07/eden-revisited-i.html]

No caminho, passaram por eles diversos rios caudalosos ou calmos, seguindo incessantes rumo ao oceano do ser. Adão e Lilith notaram que progressivamente a correnteza diminuía sua força (ou talvez fossem os remos e lemes os culpados), e atingiram — pela primeira vez em sua vida juntos — um lago, rodeado por uma planície onde apenas a relva fofa crescia em abundância, pronta a imortalizar-lhes cada passo atrás. Fez-se imóvel a jangada divina, diante do cenário inóspito; fez-se assombro no olhar de Adão, diante da ausência de movimento; fez-se um brilhar nos olhos de Lilith, ao ver a superfície vítrea do lago — e, ali, a si mesma e a seu companheiro, pela primeira vez congelados em um reflexo estático que já não é. O olhar de Adão ia longe — talvez em direção ao Sol que se punha, a caminho de dourar campos outros que não mais aqueles — e por isso, não viu que ela se ajoelhara, hipnotizada pela imagem oferecida pelo espelho líquido abaixo de si. Aportaram em terra firme, e sob um esparso manto de pontos-luz, adormeceram. A ausência de luminosidade impediu que Adão notasse Lilith, deitada diante dele, rainha de um olhar marejado de lágrimas diferentes. Houvesse ele atentado ao prenúncio silencioso das janelas fechadas, saberia que naqueles olhos tão familiares se delineava o começo de um fim. Mas adormeceu sem notá-los — e repentinamente foi acordado como que de um pesadelo frio que nunca experimentara. Naquele dia o Sol não nasceu. Nada parecia se mover por toda a volta de si — o mundo havia parado. Lilith, que adormecera a seu lado, sumira; e apenas a relva fofa, marcada pelos contornos de seu corpo nu, denunciava que algum dia estivera ali. Ele se levantou, temeroso e consciente do porvir, e sem perceber que seus passos desfaziam a anti-escultura gramínea, partiu à procura de sua outrora amada, apenas para encontrar-lhe onde soprara o vento que estaria: à beira do mesmo lago — profundo, escuro e silencioso como a noite sem luar que não fazia.

[continua...]

Rio, 15 de julho de 2012

Nenhum comentário: