sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Sobre as Sementes do Mundo Qualquer

"La Clarvoyance" (1936), René Magritte
Essa Semente nº1 é uma tentativa. Uma tentativa de compartilhar, nesse espaço, não apenas o produto final (se é que pode-se chamar assim) dos processos de escrita, mas também aquilo que muitas vezes é o vislumbre inicial de uma árvore por vir, os primeiros movimentos de um texto em germinação. Muitas destas sementes não chegarão a ver a luz do dia, seja por não encontrarem solo fértil, ou por serem completas e concretizadas em si mesmas, ou por demonstrarem total infertilidade individual. No entanto, permanecerão existindo, encapsuladas em suas potencialidades genético-literárias (quem sabe sejam plantadas por outros jardineiros?). Algumas, por outro lado, podem vir a florescer e dar frutos e flores e côres e gôstos os mais variados — e penso que, justamente nesses casos, seria interessante ter também em mãos uma memória do vislumbre inicial. 

Em resumo, as Sementes são uma espécie meio-termo entre os Aforismos e as Prosas, Poesias, etc. São aforismos que projetam-se proliferados. Mas se concluem seus quatrocentos mil projetos ou não, aí já é outra questão...

Semente nº1

Quisera compor-te um acalanto — ser pássaro que, com seu canto, seca o pranto do outro.

Rio, 31 de agosto de 2012

domingo, 26 de agosto de 2012

Sínchronos

Estamos sós, os dois. Sentados dentro de um carro memorável / ou deitados em nuvens de sonhos dos quais acordamos na mesma hora / ou apenas mergulho nos olhos do outro... estamos sós. Talvez seja caverna, lago cristalino a refletir o céu que nos cobre a face de sol, pinturas rupestres vivas em meio a tintas impressionistas e flores, sons de pequenos sinos orientais e ruídos de sussurros nos túneis — ou talvez não. Não importa. Só o que importa é a mensagem que nos traz o seráfico emissário de um deus ainda desconhecido. Nos pede, estranho!, que nosso olhar seja atento, nossa escuta aguçada e nosso pensar um sentir. Implora que saibamos discernir entre tendências internas dilacerantes; que reconheçamos não a disponibilidade que julgamos ou dizemos ter, mas a que de fato temos e demonstramos no relacionar. É serafim que, antes de terminar sua extensa lista, desaparece — e é como se nunca tivesse existido de verdade. Por trás de si (ou do si que ali havia), vislumbramos, acho que ao mesmo tempo, um duplo trono circular, digno de sábio chinês. Dividem-no duas figuras de deus, e temos medo ao vermos que nossos olhares cegam diante do abrangê-las de uma só vez. Demoramos a nos acostumar com a totalidade do que vemos ser inteiro, onde o simples enxergar já é compreender. O deus que nos mira é um senhor barbas brancas e uma criança nua e real, e em ambas as vestimentas é Chronos. Lágrimas nos olhos, ajoelha-se e vem dizer da separação que nos fez em parto. Sorriso aberto no rosto eterno, aponta-nos e mostra, por sincronicidades tantas, que as inumeráveis conjunções dos tempos nossos mira a união de almas e mentes e córpos e dois. O deus sabe dançar, e cada movimento seu é pista que desfaz a impressão de separação, por meio da percepção de repetida união nossa. Em verdade, somos nós que dançamos, e o bailar é tanto que faz o próprio tempo encurvar-se quando sob o jugo de lábios juntos. Caminhamos nós, os dois. Nós e ele. Assim, somos quatro a trilhar um caminho que é vida além de definições e circunscrições de pensamento e conformidade. Parafraseando o eu de tempos idos e ainda presentes: o deus, um e dois, nos conclama a lançar o olhar além do tempo-duplo horizontal que parece ter-nos separado em dias diferentes de hospitais distantes, até que encontremos a temporalidade vertical que repetidamente nos une em instâncias tantas que nem sei mais, para que nossos ouvidos vejam o tempo-uno que nos incita à conjunção de nós, a fim de que transformemos aparentes paradoxos de convenções (de um e outro e entre) em uma totalidade frásica, na qual imagens social e superficialmente antitéticas não se opõem, e sim mostram-se vital e sincronicamente complementares — justo por terem tanto pontos em comum quanto pontos incomuns. E por quanto nos tem mostrado e sentido, para que prossiga seu caminhar, Chronos pede que digamos, apenas e tanto, sim. Sim?

 Rio, 26 de agosto de 2012

sábado, 25 de agosto de 2012

O meu peito tem poetas

O meu peito tem poetas
profetas
amantes,
com poesias de amores
de côres
e setas,
que escrevem por sussurros
com urros
e letras,
cujos sonhos diamantes
gigantes
se fazem,
tintas soltas pelas ruas
das tuas
carícias,
riscos que não cantam mágoas
mas águas
na vida,
que se inspiram com insetos
e certos
te beijam,
são presença não-imposta
que gosta
da tua,
têm os olhos sempre atentos
sedentos
profundos,
vivem tempos que se pedem
se perdem
no gêlo,
mas sorriem com migalhas
qu'espalhas
no canto,
e derramam o reverso
do pranto
por ti.

Rio, 25 de agosto de 2012

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

transiç.

casulo: 
lagarta, 
túmulo. 

casulo: 
borboleta, 
útero. 

casulo. 

Rio, 2 de agosto de 2012

sábado, 11 de agosto de 2012

os lábios juntos

os lábios juntos
são só
lábios juntos
e no entanto
são tanto
que o quanto são
é tudo.
os lábios juntos
são sol.


Rio, 11 de agosto de 2012

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Ainda não tudo (I)

(A esperança ainda vive[,] na poesia.)

Auréolas ao lixo! Cortei
as asas que me voavam.
Deixa-me descer e deitar
ao lado teu sob o céu
só nosso e só parte.

Nudez do ser inteiro!
Para nós não há mais túnica
agora. Deixa que te sinta
o roçar da pele em outra
sem plumas ou seda.
Carne, saliva, suor e sim.

Para ser sábio,
centauro — trespassar teu corpo todo;
certeiro — flecha única à alma tua.
Ser teu — e sou,
teu ser — e só,
é tudo quanto quero.

Para ser santo,
ser puro —
não por extinção
imaculada do querer —
mas pelo aceitar
viver
as máculas todas
tantas
de todos eus 
que sou.

Para ser anjo,
ser homem.
Desejo ser-te o fogo que Teresa sentiu,
o querubim feroz
feliz
de Bernini —
lança apontada ao coração da santa,
calor andante
ardente
em passagem mais ou menos longa
por tua Ávila.

Fazer ver que eu
(te juro!)
não sou anti-
nem sobre-
humano:

que centauro é
sábio ainda animal,
quadrúpede do tiro ao alto;
que santo é
o olhar no olho à altura mesma,
o amor à carne e alma;
e que angelitude é
a plenitude da
humanidade.

E, sim,
parte de mim. 
Mas ainda não tudo.

Rio, 7 de agosto de 2012