terça-feira, 7 de agosto de 2012

Ainda não tudo (I)

(A esperança ainda vive[,] na poesia.)

Auréolas ao lixo! Cortei
as asas que me voavam.
Deixa-me descer e deitar
ao lado teu sob o céu
só nosso e só parte.

Nudez do ser inteiro!
Para nós não há mais túnica
agora. Deixa que te sinta
o roçar da pele em outra
sem plumas ou seda.
Carne, saliva, suor e sim.

Para ser sábio,
centauro — trespassar teu corpo todo;
certeiro — flecha única à alma tua.
Ser teu — e sou,
teu ser — e só,
é tudo quanto quero.

Para ser santo,
ser puro —
não por extinção
imaculada do querer —
mas pelo aceitar
viver
as máculas todas
tantas
de todos eus 
que sou.

Para ser anjo,
ser homem.
Desejo ser-te o fogo que Teresa sentiu,
o querubim feroz
feliz
de Bernini —
lança apontada ao coração da santa,
calor andante
ardente
em passagem mais ou menos longa
por tua Ávila.

Fazer ver que eu
(te juro!)
não sou anti-
nem sobre-
humano:

que centauro é
sábio ainda animal,
quadrúpede do tiro ao alto;
que santo é
o olhar no olho à altura mesma,
o amor à carne e alma;
e que angelitude é
a plenitude da
humanidade.

E, sim,
parte de mim. 
Mas ainda não tudo.

Rio, 7 de agosto de 2012

2 comentários:

Vanessa Gerbelli disse...

Gabe, você é um absurdo. Uma maravilha. "Santo é o olhar no olho à altura mesma"

Gabriel M. Falcão disse...

Van, it takes one to know one. ;)