domingo, 26 de agosto de 2012

Sínchronos

Estamos sós, os dois. Sentados dentro de um carro memorável / ou deitados em nuvens de sonhos dos quais acordamos na mesma hora / ou apenas mergulho nos olhos do outro... estamos sós. Talvez seja caverna, lago cristalino a refletir o céu que nos cobre a face de sol, pinturas rupestres vivas em meio a tintas impressionistas e flores, sons de pequenos sinos orientais e ruídos de sussurros nos túneis — ou talvez não. Não importa. Só o que importa é a mensagem que nos traz o seráfico emissário de um deus ainda desconhecido. Nos pede, estranho!, que nosso olhar seja atento, nossa escuta aguçada e nosso pensar um sentir. Implora que saibamos discernir entre tendências internas dilacerantes; que reconheçamos não a disponibilidade que julgamos ou dizemos ter, mas a que de fato temos e demonstramos no relacionar. É serafim que, antes de terminar sua extensa lista, desaparece — e é como se nunca tivesse existido de verdade. Por trás de si (ou do si que ali havia), vislumbramos, acho que ao mesmo tempo, um duplo trono circular, digno de sábio chinês. Dividem-no duas figuras de deus, e temos medo ao vermos que nossos olhares cegam diante do abrangê-las de uma só vez. Demoramos a nos acostumar com a totalidade do que vemos ser inteiro, onde o simples enxergar já é compreender. O deus que nos mira é um senhor barbas brancas e uma criança nua e real, e em ambas as vestimentas é Chronos. Lágrimas nos olhos, ajoelha-se e vem dizer da separação que nos fez em parto. Sorriso aberto no rosto eterno, aponta-nos e mostra, por sincronicidades tantas, que as inumeráveis conjunções dos tempos nossos mira a união de almas e mentes e córpos e dois. O deus sabe dançar, e cada movimento seu é pista que desfaz a impressão de separação, por meio da percepção de repetida união nossa. Em verdade, somos nós que dançamos, e o bailar é tanto que faz o próprio tempo encurvar-se quando sob o jugo de lábios juntos. Caminhamos nós, os dois. Nós e ele. Assim, somos quatro a trilhar um caminho que é vida além de definições e circunscrições de pensamento e conformidade. Parafraseando o eu de tempos idos e ainda presentes: o deus, um e dois, nos conclama a lançar o olhar além do tempo-duplo horizontal que parece ter-nos separado em dias diferentes de hospitais distantes, até que encontremos a temporalidade vertical que repetidamente nos une em instâncias tantas que nem sei mais, para que nossos ouvidos vejam o tempo-uno que nos incita à conjunção de nós, a fim de que transformemos aparentes paradoxos de convenções (de um e outro e entre) em uma totalidade frásica, na qual imagens social e superficialmente antitéticas não se opõem, e sim mostram-se vital e sincronicamente complementares — justo por terem tanto pontos em comum quanto pontos incomuns. E por quanto nos tem mostrado e sentido, para que prossiga seu caminhar, Chronos pede que digamos, apenas e tanto, sim. Sim?

 Rio, 26 de agosto de 2012

Um comentário:

Raquele disse...

Nossa Gabe, vc é otimo, cada dia te admiro mais e mais, só sei dizer parabéns, amei o seu blog...