domingo, 16 de setembro de 2012

Benedicti

para a benta.

As mãos que acariciam são flores cheiro laranja, o rosto que se apresenta à carícia é água doce francesa, e a irrupção que recorre em risos juntos nos vibra o outro, enquanto estacionamos o tempo diante de um portão qualquer. Olhos que te miram te querem, lábios que te falam te adoram, e os sôpros que se penetram são a amálgama do amor do imaterial. Quisera que os deuses todos, tantos, testemunhassem essa mais absoluta ausência da necessidade de categorizar; sonhei arcanjos verem que o quanto se tem ultrapassa a nomenclatura que se dá. Aplaudiriam-nos todos, entusiasmados, a bravura em caminharmos sem mapas conhecidos, ou pontos de chegada e de partida — contariam que, contrário ao que se pense, aqueles que assim trilham suas vidas, andam preenchidos de sentidos e significações, tendo por companhia o impulso vital da carne da totalidade. De nossa parte, iríamos contar-lhes (aos deuses e arcanjos) que no plano onde nos encontramos há, entre e em torno a aparentes dois, um. Um que lhes é a ambos e a nenhum — e que se faz em conformidade a si, aquém e além das vontades. Um que é tempo: ciclo, duração verdadeira da vida em muitas voltas. Um que é espaço: cosmos, estrutura em ordem natural daquilo que é inteiro. Um que se mostra na surpresa que sinto, quando me arrancas de devaneios tantos com lábios quentes a se fazerem um; e quando, em meio à madrugada solta, nos tornamos todo-ouvidos a esse ser-nós, que conta do que somos / e temos / e vamos. Quando ambos os ombros servem de apoio às faces duas, quando as mãos de dois se encontram por entre seus cabelos, quando cantores ou silêncio preenchem o ar à nossa volta, aquele mesmo um — em forma de calor no coração — segreda-nos que somos, não partes passíveis de classificação, mas totalidade apenas abrangida pelo amor silencioso da alma que se reconhece em outra — e que para o que é todo real e vivo, não há possibilidade de categoria e nome, não há diferença entre repetição e ineditismo, não há escolha entre amizade e romance. Só o que existe, para aquilo que somos, é o aceitar-lhe qual verdadeiro e inominável sim.

Rio, 16 de setembro de 2012