domingo, 29 de dezembro de 2013

Nativitas (I)

A terra onde sequer sabiam que aportariam, quem primeiro avista – poderiam afirmar as línguas videntes ou divinas – é a criança que jaz nua na canoa improvisada que lhe serve de berço. Seu pranto irrompe, em meio à calmaria da madrugada fria, observado por nenhuma outra alma que não o curioso sol, a espiar indiretamente através de seu espelho lunar, redondo e inteiro como tudo. Filha de navegadores, é ela semente que ainda em terra firme faiscou do encontro de fogo e sôpro de pai e mãe, foi ela crescente fruto uterino embalado por cantigas e histórias milenares, enquanto ainda envolto e nutrido pelas águas universais da mãe, pátria. Rumavam os três, como todos, sempre, ao desconhecido - embora disso ela nada soubesse quando pai e mãe embarcaram, pela última vez, o já conhecido navio onde viriam a enlaçar braços com a morte em quase simultaneidade a seu reencontro com a vida. Pariu-se apenas quando já não mais se via terra por lado algum, e descortinou, das carnes da mãe, sua própria coroa ensanguentada em sincronia com o despontar do novo e mesmo sol de um ciclo qualquer. Nascia já órfã de pai – recém-martirizado ao digladiar bravamente com os sombrios cavaleiros de um barco inerte que buscava impedir-lhes o movimento – apenas para ver, com o sol do meio-dia, o último suspiro de sua mãe, fragilizada pelo hercúleo e virginal trabalho do parto de algo tanto mais puro quanto mais insuportavelmente decadentes as estruturas em torno. É aquela mesma criança que agora rasga, com seu pranto soluçado, os últimos véus de uma noite já quase nua, na qual sempre e ciclicamente se despedem de nós as almas da era que morre. Prontamente acorrem tantos quanto ali estão – ela, agora, filha de todos e de ninguém. Não é de imediato que suas mentes cansadas notam a presença tão pouco impositiva do litoral ao longe, e apenas quando o profético chôro de reconhecimento do futuro se ilumina com o desmergulho de um sol em alvorecer multicor, é que o mais surdo dentre eles ouve o ruído quase impossível das gaivotas que sobrevoam o navio. 

[continua]

domingo, 13 de outubro de 2013

Semente nº3

Qual homem crucificado que expira, em parábolas, Pai, seja feita a tua vontade e não a minha, o ser que se faz nau entoa, em versos, Deuses, guiem-me teus sôpros e não meus remos.

Rio, setembro de 2013

terça-feira, 17 de setembro de 2013

cór

Fosse rasgo (aberto à unha na pele nua do peito) 
fosse chama (acesa em brasa em meio ao fogo do corpo) 
foss'estrela (pulsando raios a tudo em torno que gira) 
fosse flôr (que desabrocha em pleno campo de terra) 
fosse rio (enveredando por leitos novos que secos) 
fosse sôpro (expirações de deuses outros de dentro) 
fosse mar (início e fim dos muitos seres que somos) 
entenderia. 

Mas não. 

É músculo e pulsa. 
É carne e sangra. 
É vida e um dia 
morre.


Rio, setembro de 2013

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Near-sonnet: one (rose)

[in honor of St. Valentine and Shakespeare — and more.]

From warmest hugs we do desire increase
so that our heart-soul's rose might never die. 
Yet only that which ages does decease — 
our flower-to-fulfill still lives on by. 

But if our heart-soils gave it seeds and roots 
why had such a love-sprout not fully built? 
Precisely 'cause the world had barred its fruits 
and kept this same rose waiting, unfulfilled. 

The worldly obstacles had to be fought, 
still love made plants grow, following it's plan. 
Now life presents love with what it had not; 
and world could not erase what love had then. 
Life only asks for those same roots and seeds — 
the rest, which she denied us, now she feeds. 

Her presents are: increased proximity, 
so we may have the chance to grow desires; 
then, rooms with sun and space and privacy, 
to build our garden far from strangers' eyes; 
and, more, new earth and wind and cycle-time, 
for souls do need some rest to reach their prime. 

Love's petals, that the world could never spoil, 
now whisper yearns of growth, in secrecy — 
they know we're here and free and very close. 

These winds of unfulfillment breathe our soil 
so that, even though others don't yet see, 
our love may grow one ever-living rose.


São Paulo, 03.2013

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Grandmèrepatrie














És patria soberana que proclama

fraternidade unida à igualdade, 
honrando os que viveram e morreram 
em busca de su'amada liberdade. 

Qual mãe que enche o filho de lembranças 
em leite que ele sorve sem cessar, 
batalhas e reinados e poesias 
teu seio oferta ao peito que se dá. 

Aqui vi o parto de uma humanidade 
da qual tu foste o ventre preparado. 

Agora é finda tua maternidade, 
um novo parto ja é esperado. 

Mas peço: me retém em tua memória 
(pois foste parte-mãe de minha história) 
e nunca esquece desses filhos teus. 

Pois levo em meu peito a tua glória 
e aind'ouço os teus brados de "Vitória!" ... 
Obrigado, França, e adeus. 


Panthéon, Paris, França (04/11/2012)