terça-feira, 28 de outubro de 2014

A eleição nos tempos da internet

Apesar da velha oposição entre tucanos e petistas, esquerda e direita, alhos e bugalhos, Flamengo e Fluminense, Carminha e Nina, Deus e o Diabo, Ser ou Não-Ser, o processo eleitoral que acabamos de vivenciar lidou sim com um novo fator (que fez uma grande diferença): a internet. 

Se quatro anos atrás as redes sociais não foram, em época de eleição, sequer alvo de comentários na vida fora delas, dessa vez foi a vida fora delas, junto com a eleição da época, que quase não deixou de ser comentada dentro delas. Amizades foram desfeitas e refeitas, velhos colegas tornaram-se arqui-inimigos, antigos desafetos se descobriram irmanados pela posição política, e por aí vai. Mas o que será que se pode depreender de tudo isso? 

Primeiramente, é claro, que há um saldo positivo. O deputado federal reeleito Jean Wyllys (PSOL-RJ), por exemplo, que nas eleições de 2010 havia obtido algo em torno de 13 mil votos, esse ano teve mais de 144 mil eleitores – e sua campanha, de parcos recursos, utilizou amplamente as redes sociais e as ferramentas virtuais de compartilhamento de informações e imagem (inclusive ao vivo, através de comícios domiciliares transmitidos por webcam). Acredito que esse mesmo fenômeno possa ser observado por todo o país em outras campanhas para cargos proporcionalmente eleitos. Mas também os candidatos a cargos majoritários usaram e abusaram de suas respectivas páginas na rede, com o saldo de compartilhamentos e comentários muitas vezes alcançando a casa dos milhões. Acho seguro afirmar que nunca se falou tanto de política no Brasil. Ponto pra nós todos — e pra internet. 

Porém, como quantidade e qualidade são fatores distintos e muitas vezes inversamente proporcionais, os ânimos acirrados de uma campanha presidencial disputadíssima acabaram levando eleitores país afora a propagar não apenas discursos muitas vezes levianos ou agressivos, mas também informações inverídicas ou mesmo tendenciosas. Não faltaram estatísticas oriundas de fonte nenhuma, dados coligidos por instituto algum, compartilhamento sério de notícias falsas do jornalismo humorístico, e até mesmo citações atribuídas a quem não as proferiu. 

Pior: na semana anterior à realização do segundo turno circulou a ridiculamente falsa notícia de que, devido ao grande número de eleitores, o TSE havia determinado que os votantes de cada partido comparecessem às urnas em dias diferentes. (Vale refletir que provavelmente houve quem acreditasse, apesar do ridículo da proposta — e que isso constitui crime federal.) Ainda pior: na madrugada imediatamente anterior à votação, as redes sociais e os aplicativos de comunicação virtual foram inundados pela notícia da morte de um dos delatores do esquema de corrupção dentro da Petrobras (ele teria sido envenenado e o fato estaria sendo acobertado tanto pela Polícia Federal quanto pelos médicos do hospital aonde ele fora encaminhado) — e normalmente as mensagens terminavam solicitando encarecida ou ameaçadoramente que o recipiente a compartilhasse com o maior número possível de amigos, pois a mídia estaria “impedida” de notificar a população. O delator segue vivo, vítima tão somente de sua condição de cardíaco. 

Esse inegável salgo negativo não é exatamente algo novo; mas o fato de uma mesma discussão ter tomado praticamente todo o país, a nível virtual, ressaltou de forma pungente e nova as mesmas duas armadilhas sempre presentes no mundo virtual: anonimato e anarquia. É quase irresistível. A possibilidade de escrever e compartilhar algo a partir do computador, em nossos quartos ou escritórios, ou do celular, conosco literalmente o tempo todo, nos garante a falsa e nítida sensação de que não estamos realmente implicados no que fazemos na internet, cria a ilusão de que uma persona virtual se interpõe entre nós e nossas ações virtuais, de que não há reação ou fiscalização pública sobre o que virtualmente se faz. Mas é justamente o contrário: tudo que escrevemos, publicamos ou compartilhamos na internet é rastreável a nós e permanece armazenado nos registros de servidores mundo afora. Atualmente, as polícias de quase todos os países possuem delegacias especializadas em crimes virtuais, e muitos sistemas legislativos já estabeleceram leis e diretrizes para a interação virtual entre seus cidadãos. O Brasil se inclui em ambos os casos. Já não são apenas os membros da sociedade que estão presentes na internet, mas também as estruturas sociais. Nada mais justo e necessário — quando feito dentro dos limites legais publicamente estabelecidos. 

Como qualquer ferramenta que recebemos sem manual de instruções, é natural ainda não conseguirmos compreender plenamente as implicações do mundo virtual. Mas é também imperioso que nós comecemos a perceber o quanto esse mundo virtual é, hoje, também um mundo real — que nele existimos como cidadãos, com direitos e deveres e leis; que dele podemos fazer o que quisermos; e que ele só será o que dele pudermos fazer. E acho que não há momento melhor para começarmos a tomar consciência disso do que agora, no respiro que se segue ao torvelinho das últimas semanas, durante as quais muitos de nós abusamos, de forma inconsequente, das maravilhosas e quase-infinitas possibilidades que nos são presenteadas pela internet. 

Rio de Janeiro, 28 de outubro de 2014

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Prefácio para um conto (ainda) não escrito

Talvez se tenha movido a esse fim uma intangível e luminescente mão divina — dizem as más línguas que ocasionalmente se pode avistar, suavemente delineados contra um pano de fundo pontilhado por estrelas e membros e órgãos do corpo do mundo, seus dedos de supernova esfumaçada em ação — e, num canto longínquo de um universo que pulsa, se tenha ouvido, por silentes transações insondáveis, o comando orgânico da própria vontade-própria da existência em si: sutil síntese que é, não lhe saberíamos perscrutar os desígnios de ciclo e cosmos desde nossa ainda e sempre pequena lente humana. Talvez, apenas, um sôpro — e o devir tome sua direção, único e imperturbável como a nau que parte do porto vazio. Seguimos, nós, duplamente súditos: de um lado, impossibilitados de confirmar a origem do movimento de cada coisa; de outro, incessantemente impelidos pela irresistível corrente do rio que existe e nos leva concretamente ao redor e adiante. Talvez nos caiba, tanto e tão-somente, a descoberta criativa do sentido da vida, poesia do cosmos da alma, invenções a partir daquilo que nos dá o todo. Talvez, talvez, talvez, talvez... Os muitos pretéritos possíveis, dos quais vive sempre prenhe o ventre de tudo aquilo que não sabemos, nos acenam, ameaçadores e lindos, da base do monte que nunca subimos.

Rio, 24 de setembro de 2014 (Sol a 2º de Libra)

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Som e...

As luzes lentamente se apagam, indicando o iminente início da peça, e juntamente com a luminosidade decresce o ruído. A plateia se aquieta, e rapidamente tem-se não apenas o breu mas o silêncio... 

Ou quase. De algum ponto à minha esquerda percebo um som inusitado, como um chiado grave e trêmulo. Nos poucos segundos que antecedem a primeira cena do primeiro ato de “The Two Gentlemen of Verona”, noto que o tal chiado surge e desaparece a intervalos constantes, o que me faz pensar que sempre esteve lá, apenas suave demais para ser ouvido. Agora, porém, com o silêncio de todos os outros, sua tímida presença é quase um grito. Mas minha curiosidade é rapidamente dissipada pelo início do espetáculo – e durante alguns segundos até esqueço o ocorrido. Mas eis que, na primeira pausa do diálogo entre Proteus e Valentine, ele está lá, constante e ruidoso como um enviado puritano contra a plena fruição do teatro, perturbando não apenas a mim, mas a muitos outros espectadores (vejo que cabeças começam a se virar por todos os lados, procurando a origem da distração). O que poderia ser aquilo? Um sistema de ventilação defeituoso? Algum aparato técnico do próprio teatro? Alguém adormecido, ressonando incessantemente? As duas primeiras alternativas parecem quase impossíveis, pela qualidade do teatro no qual estamos; a terceira, improvável – não apenas pela qualidade do espetáculo mas também por sua recém-iniciada duração. Não sem esforço, aos poucos vou conseguindo (e as outras pessoas também, pela diminuição no número de viradas de cabeça por minuto) lidar com sua presença impassível, enquanto no fundo de mim nasce uma determinação, pequena porém irremovível, de averiguar durante o intervalo a origem da perturbação. 

Quando as luzes se acendem, indicando vinte minutos de pausa entre a primeira metade da peça e a segunda, estou mais determinado do que nunca. Imediatamente, curiosos e contrariados, meus olhos e ouvidos perscrutam toda a região de onde parecia vir o som. Certamente haveria alguém com quem reclamar do acontecido: os ingressos para esse espetáculo eram preciosos e concorridos – e, melhor ainda, com certeza outras pessoas fariam a mesma reclamação, o que iria pressionar os funcionários do teatro a encontrar rapidamente uma resolução. Em meio a essas e muitas outras elucubrações silenciosas, meu olhar veloz estaca. O ruído vem, sim, de uma pessoa. Um senhor, para ser mais preciso. Atrás e abaixo dele vê-se o símbolo azul e branco que indica ser a área reservada a uma cadeira de rodas. Ele está reclinado, cobertores sobre seu corpo, o olhar atento ao palco nu que acaba de se acender. Em torno de seu nariz e sua boca, uma máscara verde projeta um tubo também verde que desce em direção a um aparelho anexado ao lado de sua cadeira. Seu peito infla grandemente em perfeita sincronia com o surgimento do chiado grave e trêmulo, enquanto sua cabeça se inclina para trás. Quando o ruído some, seu tronco novamente se esvazia e a cabeça retorna ao normal. O som é o de sua respiração. No assento ao lado dele, uma mulher, robusta, toda de preto, cabelos irretocavelmente penteados, talvez sua filha ou sua enfermeira, se levanta. Ela, com todo o cuidado e paciência, dá início a um ritual de quase-coreografia médica, com botões, máscaras, saliva, pescoço, toalha, lençóis... Quando termina, meus olhos e ouvidos mostram inequivocamente que ela se ajoelha ao lado dele, toma suas mãos nas dela e pergunta, em inglês, se ele está gostando da peça. Aguço minha percepção (ou será que a ultrapasso, rumo ao invisível e inaudível mundo do interior do outro?) e meus olhos ou imaginação ou empatia vislumbram, claro e nítido como a presença dos deuses, um esgar de sorriso em seus lábios que indica Sim. Volto a mim. Envergonhado e confuso, envolto pelas paredes do Royal Shakespeare Theatre, silencioso e solitário em meio a agitação que novamente toma conta da plateia diante do premente recomeço do espetáculo, seco os olhos, ainda ou novamente sentado. Sei que, a partir de agora, o ruído não mais vai atrapalhar minha experiência no teatro, mas tão somente engrandecê-la. 

A peça, brilhante, termina e nossos aplausos inundam o teatro. Os meus, secretamente, não se dirigem apenas ao palco. Fecho os olhos e vejo uma fantasia que se ergue como desejo, ao mesmo tempo súplica e meta, de dizer-lhe, olhos nos olhos: eu queria amar o teatro tanto quanto o senhor.


Stratford-upon-Avon, 16 de agosto de 2014

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Interver

"i carry your heart with me(i carry it in
my heart)" 
- e e cummings

Que levamos conosco quem amamos
sabemos.

Mas esquecemos
que o outro é também um eu

a quem nos ofertamos
(como outros)

e, aceitando, nos leva consigo. 

Espalhamo-nos pelo mundo, todos.

Cada despedida nos encontra menos
e mais.

A cada encontro
de nós se despede
um pedaço

e é outro que chega.

Mas, contrário ao que se pense,
de si quanto mais se dá mais se tem.
Somos mais nós mesmos -
e inteiros apenas -
quanto mais nos outros,
quanto mais eles em nós.

Eis a eternidade que almejo:
viver na alma 
daqueles que me levam em si.
Que eles, em mim,
já são todos imortais.



Londres, 6 de agosto de 2014
* modificado em 8 de agosto de 2014
*modificado em 22 de dezembro de 2015

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Sri Prem Baba

Na semana passada tive, por duas vezes, a oportunidade de estar com Sri Prem Baba. Não conhecia seu trabalho e pouco havia ouvido falar dele antes. Minhas opiniões são, portanto, quase inteiramente fruto desses dois encontros. De sobremaneira me impressionou ver alguém que, com uma história muito próxima à do brasileiro comum, tenha atingido um estado de realização psicológica/espiritual tão profundo — e agora se proponha a compartilhar suas conclusões e experiências. Paulistano do bairro da Aclimação, ele foi office-boy e gerente financeiro de uma empresa, passou pelo catolicismo, umbanda, gnosticismo, rosacruz, estudou xamanismo e se formou em psicologia, até encontrar orientação espiritual direta de um guru indiano e ser apontado como seu sucessor à frente da antiga linhagem à qual pertencia. Seu discurso é simples e direto, evitando elucubrações metafísicas e focando na experiência humana comum a todos nós — sofrimento, traumas, medo, ódio, evolução, lembranças, confiança, amor... Sua proposta mais abrangente se resume a um desafio, um convite a uma experiência: fazer 1 minuto de silêncio por dia, a qualquer momento. Apenas fechar os olhos, prestar atenção na própria respiração, se desligar um pouco da rotina, das histórias, dos afazeres e focar no interior de si mesmo. Por fim, saindo do âmbito de sua individualidade, acho extremamente preciosa a combinação singular de fatores que levou ao produto do que ele simboliza — a união de psicologia e espiritualidade, de Índia e Brasil, de tradição e realização, de passado e presente. Tudo isso é sintetizado, em sua mensagem, num sistema denominado “Caminho do Coração”, que cada um é convidado a trilhar rumo a um possível futuro para o qual o amor é uma das rotas mais diretas e plenas.

Rio, 9 de junho de 2014

Livro: "Transformando o sofrimento em alegria", de Sri Prem Baba, na Livraria Cultura

Para mais informações: http://www.sriprembaba.org/pt-br

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Pranteia

Nosso pranto 
não é triste.

É que as coisas se nos entregam

inteiras 
quando terminam. 

E recebê-las 

nos revela 
aquilo que, no fundo,
tudo é:
ciclo.

Começo,

meio,
fim,
...

E apenas a nós
cabe o cultivo das lembranças.
Às coisas cabe a semente do que sejam,
e quando terminam
nos tornamos os únicos responsáveis
pelo jardim das coisas completas.

Nossas lágrimas

são pétalas 
de completude.


Rio, 6 de junho de 2014
[para toda e cada pessoa que fez parte de Malhação Casa Cheia]

domingo, 11 de maio de 2014

Reza do crematório

Diante de nós,
irmãos,
está onde estive.
Corpo.

Pele, carne, ossos. Roupa.
Olhos, dentes, pêlos. Jóias.
Toque, sôpro, chôro. Outros.

Nos lábios de outrora,
há silêncio.
Repouso, nos cílios de ontem.
Soltura nos músculos todos.

E pessoas em volta.
E imagens tantas entre pessoas!
Pessoas dentro e fora...
É o fim da morada, pessoa.

A hora é chegada.
Valete, corpus.
Valete, corpus.
Valete,
corpus.

...

Faísca.
Chama.
Fogo.
Sobe, lambe,
ruge,
queima.

Queima.
Lenhas por ossos, palhas por pelos, chamas por olhos. Queimam.
Queimo.
Queimar.

Em torno
luzes quentes pintam as faces
inconstantes
incognoscíveis
imperturbáveis
definitivas

Nos olhos de quem vê
consome-se a carne em brasa.
A cinzas reduzidos, órgãos.
Os poros exalam
fumaça
e fim.

Vida é chama que se consome a si mesma.
Na matéria surge,
da matéria cresce,

como matéria
morre.

Diante de vós,
filhos,
está onde estais.
Pó.

Rio, 11 de maio de 2014

domingo, 6 de abril de 2014

Araras

(Sei que não estou lá
mas sinto como se estivesse.)

Como se aí aí não fosse, mas aqui.
Como se aqui não aqui sentisse, mas aí.

Que minha alma a teu entorno se transporta:
teus aromas pulsantes de frescor da vida, caldeirados pelo vento leve,
tuas ásperas e úmidas lascas de terra e cheiros,
teu barulhar sempre novo do riacho em pedras pequenas,
teu calor florido de um Sol que te cozinha o vale aberto...

Qual anti-Caeiro,
(que este nunca está onde não está)
porventura encontro-me imaginalmente onde não estou
quando impedido sou de estar em corpo
e a alma faz, por si, viagem.

Que não em outro espaço senão a alma
cabe-me tua real existência inteira.
Que não em outro tempo senão a alma
existem minhas memórias tuas de estações todas.
Que não em outro peito que não a alma
existe amor.

O próprio Caeiro,
quando amou e se julgou doente,
transportou-se aonde não estivesse
e lá esteve.

Eu, contrário, me curo em ti:
viajo-te porque te amo.

Rio de Janeiro, 6 de abril de 2014

domingo, 23 de março de 2014

Gravid-

(para meu amigo e irmão Matías de Stefano)

De Gravidade, o que mais me fica – além do maravilhamento pela absolutamente brilhante direção de Alfonso Cuarón, do assombro com a perfeição dos efeitos visuais da companhia britânica Framestore e da admiração pelas intensas e imaginativas atuações de Sandra Bullock e George Clooney – são reflexões intelectuais e afetivas sobre a atual condição da humanidade. 

Fomos propulsionados ao espaço infinito de um universo sem propósito, ao qual chegamos devido a um impulso filosófico e científico a um só tempo construtor de astronautas e destruidor de deuses. A pouca vitalidade dessas novas imagens e ideias, trazidas pelos renascidos concretizadores humanos desse impulso para substituir os símbolos de outrora, torna frágeis suas cordas-fidelidade às naves-conceitos nas quais gravitamos em torno e à distância do planeta. Apesar de tanta tecnologia, ou na verdade justamente por causa dela, inesperadas nuvens de detritos (também tecnológicos) podem facilmente romper nossos cabos-crenças e destruir nossos satélites-personalidades. Nos vemos, então, à deriva – não em um Cosmos, mas em um Caos. Tentamos diálogo primeiramente com um Deus-Houston que não nos responde (e nem sabemos se nos ouve); posteriormente buscamos contato com qualquer divindade-estação que se apresente à vista; finalmente, logramos uma precária conversa à distância com outro ser humano, que não nos compreende e não nos vê – e nem nós a ele. Decidindo morrer para o outro, desistimos de qualquer possibilidade de interconexão, e apagamos as luzes ao fechar os olhos da alma. Ainda assim, há esperança: no frescor da subversão e transcendência de valores e regras rigidamente impostos, talvez possamos descobrir que a forma de nos propulsionar adiante talvez não seja outra do que a de aterrissar. Abre-se, então, a possibilidade de sermos gravitacionalmente chamados à readmissão atmosférica. Para isso precisamos ter nossas mentes-cápsulas purgadas pela incandescência do próprio planeta e enfim imergirmo-nos no útero oceânico da Terra, sendo paridos em um desconhecido litoral qualquer, no qual herculeamente nos esforçaremos para nos pôr de pé. Resta-nos, apenas e sempre, seguir caminhando junto ao planeta – do qual somos partes conscientes e, quiçá, conscientemente partes. 

Rio, 23-3-2014

segunda-feira, 10 de março de 2014

FILME: "Spring Breakers" (2012), de Harmony Korine

Ontem: assisti Spring Breakers pela internet. Hoje: fui surpreendido pelo fato de que todas as pessoas com quem comentei sobre o filme me disseram ou tê-lo achado ruim ou ter ouvido alguém dizer que o achou ruim. Foi essa total ausência de qualquer comentário positivo fez minha surpresa, já que achei o filme simplesmente uma obra-prima audiovisual.

Audiovisual. Aí está. O que me fascinou não foi tanto a construção dramática dos personagens ou a trama desenrolada ao longo do roteiro, mas sim a experiência estética de imagem e som — propiciada principalmente pelo entrelaçamento da fotografia de Benoît Debie (ora berrando em artificiais cores néon, ora permitindo que a natureza docemente pintasse a tela) com a trilha sonora de Cliff Martinez e Skrillex (alternando entre a melódica precisão de trilhas incidentais clássicas e a alucinante música eletrônica das raves).

Além da trama e aquém da sensorialidade, a experiência afetiva humana também é belíssima, e o elenco é todo certo e necessário — embora duas coisas se sobressaiam: a atuação absolutamente genial de James Franco e a sensibilidade do trabalho de Selena Gomez. Ele, na pele de um antiheroico traficante/rapper que toca piano e mantém pilhas de dinheiro sobre a cama, esbanja maneirismos e sotaques e descontroles. Ela, como uma adolescente sensível e infeliz, indecisa entre as carolices de um cristianismo carismático meio neopentecostal e as dionisíacas rebeldias pulsantes de suas amigas e de sua geração, transborda em emoção e veracidade e questionamentos. 

No fim das contas, o filme é primoroso justamente pela harmonização de contrastes magistralmente orquestrada pelo diretor Harmony Korine. Tanto em imagem quanto em som, agressão e afeto alternadamente se chocam e se complementam para oferecer um vislumbre por detrás do véu da juventude contemporânea.

[No Brasil o filme foi lançado diretamente para DVD com o duvidoso subtítulo de "Spring Breakers - Garotas Perigosas".]

{Abaixo o vídeo de uma cena do filme, completamente fora de contexto mas sensorialmente útil para exemplificar as verborrágicas elucubrações acima.}

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

LIVRO: "Os Arquivos Snowden", de Luke Harding

Há histórias que são símbolos. Não porque inventadas ou inverossímeis (tanto faz serem ficcionais ou não), mas por suas tramas e seus personagens exemplificarem perfeitamente o contexto histórico no qual estão inseridos, e as ações e reflexões deles se revelarem fundamentais às discussões essenciais da época. São mitos instantâneos, não importa se estampados nas capas de jornais, projetados em películas cinematográficas, propagados por satélites de TV ou rascunhados nas páginas de um livro. 

Essa história é um símbolo. Não apenas abstrato, por tratar de conceitos essenciais à nossa contemporaneidade (como a liberdade de expressão e o direito à privacidade), mas também concreto, ao revelar as operações secretas de vigilância civil por parte de governos democraticamente eleitos, através de instituições que, embora teoricamente regulamentadas pelos parlamentares de seus respectivos países, não se reportavam a ninguém. 

Um homem com alguns pen-drives, um jornalista estadunidense autoexilado no Brasil, e um jornal britânico em sua recém-inaugurada filial novaiorquina — eis a trindade central do mito em questão. Ou, em nomes próprios: Edward Snowden, ex-administrador de sistemas da Agência Nacional de Segurança dos EUA (a NSA); Glenn Greenwald, jornalista e colunista político conhecido por criticar duramente as mais obscuras práticas do governo pós-11/9; e o The Guardian, um dos maiores jornais britânicos, nesse caso operando principalmente através de seu braço nos EUA. 

A interação desses três vértices revelou, através da publicação de arquivos confidenciais da NSA e de suas parceiras, um esquema além-orwelliano de vigilância e espionagem governamental, que inclui grampear cabos submarinos de fibra ótica, hackear os servidores de grandes empresas de comunicação (Google, Yahoo, Apple, etc) e até mesmo interceptar imagens das webcams de notebooks particulares. Seus alvos, embora incluíssem diversos chefes de Estado (como a premier alemã Angela Merkel e a presidente brasileira Dilma Rousseff), não eram necessariamente pessoas de eminência política. Nós, insuspeitos cidadãos de diversos países, tínhamos (e temos) nosso tráfego de dados constantemente interceptado pelas agências de segurança anglofônicas, em prol de sua “guerra ao terrorismo”. 

Oscilando entre a narrativa romanceada dos melhores livros de espionagem e a reportagem jornalística de fatos de indisputável interesse público, Os Arquivos Snowden mostra que o jornalismo ainda cumpre uma função essencial à sociedade, quando realizado com critério, ética e coragem. Na atual “era da informação”, onde grande parte de nossas comunicações se faz através da internet, talvez não seja outro o poder que se proclame resposta à retumbante pergunta de Juvenal: Quis custodiet ipsos custodes? (Quem vigia os vigias?). 


Rio, 28 de fevereiro de 2014

Os Arquivos Snowden foi lançado no Brasil pela Editora LeYa, com tradução de Alice Klesck e Bruno Correia.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Nos outros

(à la Wilde)

O que temos e queremos ter, adoramos. O que temos e não queremos ter, odiamos. O que não temos e queremos ter, invejamos. O que não temos e nem queremos, não vemos.

domingo, 5 de janeiro de 2014

A vida, alheia

Não é de hoje que a expressão “era da informação” serve à tentativa de classificar e rotular os estranhos tempos em que vivemos, grandemente alicerçados na internet e nos avanços tecnológicos dos meios de comunicação. A nomenclatura parece acertada, pois nunca a informação foi tão (e tão facilmente) propagada. Afinal, qualquer pessoa pode ter (e a grande maioria tem) seu próprio espaço virtual de troca e armazenamento de conteúdos pessoais — todos temos nossas vidas online. Além disso, basta um despretensioso vídeo viral, uma foto despudorada ou um comentário infeliz para que os holofotes da opinião pública se fixem sobre as quase sempre despreparadas pupilas de uma pessoa qualquer — todos estamos ao alcance de todos.

Precisamente em meio a isso (res)surge a questão da liberação das biografias não-autorizadas. Como sempre, há exageros em ambos os lados. De um, vemos os que apontam os dedos para os artistas e pensadores que não desejam a liberação, acusando-os de censores — são dedos filhos de uma ditadura recente demais para ter cicatrizado, e baseada (como toda ditadura) no cerceamento à livre circulação de informações de interesse público. De outro, estão os que vislumbram objetivos meramente financeiros nas mentes dos biógrafos e jornalistas defensores da liberação — são olhos contemporâneos de um jornalismo industrial recente demais para ser apontado, baseado na concepção da informação como produto. Ambos os extremistas, na falta de uma apreensão mais clara da situação, se reportam às leis: um se recarrega de munições com a Constituição, o outro remenda seus feridos com o Código Civil; um aponta espingardas da liberdade de expressão e o outro se refugia sob barricadas de direito à privacidade. 

Aqui as leis não são argumento, pois não se trata de decidir qual dos princípios é mais valioso ou qual ferramenta institucional é mais poderosa. Trata-se, antes, de encontrar uma resposta no cerne da própria questão: qual é o ponto em que a livre expressão se torna invasão de privacidade, ou em que o direito à privacidade se torna empecilho à informação livre? A fim de localizar corretamente esse mesmo ponto nevrálgico tornam-se necessárias pelo menos duas indagações de suma importância. Uma: onde começa e onde termina a privacidade de alguém? E outra: qual tipo de informação deve ter sua livre circulação, sempre e sob qualquer circunstância, protegida? 

Mas antes de mergulhar em tais questões — que no fundo são uma e a mesma — é imperativo reconhecer que nelas não cabem afirmações discriminativas como a do deputado Newton Lima (autor do projeto de lei 393/11, que legitima as biografias não-autorizadas), que afirmou que “quando uma pessoa se torna pública, seu direito à privacidade é relativizado”. Torna-se mesmo desnecessário trazer a lume o absurdo de se relativizar um direito fundamental do ser humano diante de um conceito tão abstrato e parcial, se apenas repararmos no gritante anacronismo da frase. Afinal de contas, o que é uma pessoa pública? Certamente nada mais que alguém cuja personalidade alcance e repercuta em uma grande quantidade de pessoas dentro de uma coletividade. E hoje em dia isso pode significar, literalmente, qualquer um. Na verdade, todos já somos potencialmente pessoas públicas, pois temos ao alcance de nossos cliques um número imenso de pessoas que, por sua vez, também nos têm ao alcance do seu. Fica claro, portanto, que delimitar e defender a privacidade de todo e qualquer indivíduo deve ser algo do maior interesse de todos nós — pois a privacidade que defendemos não é outra senão a nossa própria. E nunca foi tão fácil invadi-la.

{5 de janeiro de 2014}

[continua]