domingo, 5 de janeiro de 2014

A vida, alheia

Não é de hoje que a expressão “era da informação” serve à tentativa de classificar e rotular os estranhos tempos em que vivemos, grandemente alicerçados na internet e nos avanços tecnológicos dos meios de comunicação. A nomenclatura parece acertada, pois nunca a informação foi tão (e tão facilmente) propagada. Afinal, qualquer pessoa pode ter (e a grande maioria tem) seu próprio espaço virtual de troca e armazenamento de conteúdos pessoais — todos temos nossas vidas online. Além disso, basta um despretensioso vídeo viral, uma foto despudorada ou um comentário infeliz para que os holofotes da opinião pública se fixem sobre as quase sempre despreparadas pupilas de uma pessoa qualquer — todos estamos ao alcance de todos.

Precisamente em meio a isso (res)surge a questão da liberação das biografias não-autorizadas. Como sempre, há exageros em ambos os lados. De um, vemos os que apontam os dedos para os artistas e pensadores que não desejam a liberação, acusando-os de censores — são dedos filhos de uma ditadura recente demais para ter cicatrizado, e baseada (como toda ditadura) no cerceamento à livre circulação de informações de interesse público. De outro, estão os que vislumbram objetivos meramente financeiros nas mentes dos biógrafos e jornalistas defensores da liberação — são olhos contemporâneos de um jornalismo industrial recente demais para ser apontado, baseado na concepção da informação como produto. Ambos os extremistas, na falta de uma apreensão mais clara da situação, se reportam às leis: um se recarrega de munições com a Constituição, o outro remenda seus feridos com o Código Civil; um aponta espingardas da liberdade de expressão e o outro se refugia sob barricadas de direito à privacidade. 

Aqui as leis não são argumento, pois não se trata de decidir qual dos princípios é mais valioso ou qual ferramenta institucional é mais poderosa. Trata-se, antes, de encontrar uma resposta no cerne da própria questão: qual é o ponto em que a livre expressão se torna invasão de privacidade, ou em que o direito à privacidade se torna empecilho à informação livre? A fim de localizar corretamente esse mesmo ponto nevrálgico tornam-se necessárias pelo menos duas indagações de suma importância. Uma: onde começa e onde termina a privacidade de alguém? E outra: qual tipo de informação deve ter sua livre circulação, sempre e sob qualquer circunstância, protegida? 

Mas antes de mergulhar em tais questões — que no fundo são uma e a mesma — é imperativo reconhecer que nelas não cabem afirmações discriminativas como a do deputado Newton Lima (autor do projeto de lei 393/11, que legitima as biografias não-autorizadas), que afirmou que “quando uma pessoa se torna pública, seu direito à privacidade é relativizado”. Torna-se mesmo desnecessário trazer a lume o absurdo de se relativizar um direito fundamental do ser humano diante de um conceito tão abstrato e parcial, se apenas repararmos no gritante anacronismo da frase. Afinal de contas, o que é uma pessoa pública? Certamente nada mais que alguém cuja personalidade alcance e repercuta em uma grande quantidade de pessoas dentro de uma coletividade. E hoje em dia isso pode significar, literalmente, qualquer um. Na verdade, todos já somos potencialmente pessoas públicas, pois temos ao alcance de nossos cliques um número imenso de pessoas que, por sua vez, também nos têm ao alcance do seu. Fica claro, portanto, que delimitar e defender a privacidade de todo e qualquer indivíduo deve ser algo do maior interesse de todos nós — pois a privacidade que defendemos não é outra senão a nossa própria. E nunca foi tão fácil invadi-la.

{5 de janeiro de 2014}

[continua]

4 comentários:

Débora Silva disse...

Não são palavras,frases nem muito menos parágrafos que vão mudar a história da pessoa.Não são leis que curam e nem tiram das mentes das pessoas o que elas leram em uma revista,post e nem em um livro.Não mudamos porque escolhemos uma profissão.Nunca deixarei de ser Débora porque no futuro desejo ser uma professora.Você nunca deixará de ser Gabriel só porque escolheu ser ator.Não é profissão que define o que somos,é o intimo.
Palavras podem té mudar pensamentos,mas não mudam o que está dentro.
Dizer que fulano fez aquilo ou que deixou de fazer, não me diz que ele é bom ou que ele é ruim.
Lei nenhuma pode dizer o que pode ou o que não pode ser escrito.
Temos MUITOS direitos,deveres,obrigações ....Porem ainda nos falta respeito e acima de tudo consideração pelo próximo.
Se você escritor tem o dom e o privilégio de escrever sobre alguém,use-o bem.

Verônica Camilo disse...

Infelizmente, nem todas as pessoas possuem uma mente aberta para compreender que uma pessoa pública tem o direito de preservar a sua vida pessoal para si mesma. A vida pessoal de um ser humano, famoso ou não, só deve ser publicada de livre e espontânea vontade do ser envolvido e se for edificante para exemplificar outras vidas. Mas, para que nos interessa saber as falhas e a intimidade alheia? Todos nós falhamos e somos igualmente imperfeitos; mas o que não edifica, não precisa vir a público.

Natália Caroline Delgado disse...

Nada melhor que aquele olhar encorajador, com aquele piscada de leve dizendo que você consegue, nada melhor quanto se olha para alguém com aquele olhar de feliz mesmo quando o sorriso dos lábios não se abre e isso porque nosso olhar diz coisas que a nossa fala é incapaz de dizer que no nossa gesto e impossível de produzir que nosso ouvido é incapaz de escutar. Que o meu coração é impossível de se compartilhar. Que somente o olhar vai fazer interpretar o que é amar. Gostou Gabriel?

Gabriel M. Falcão disse...

Obrigado, Natália! :)