sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

LIVRO: "Os Arquivos Snowden", de Luke Harding

Há histórias que são símbolos. Não porque inventadas ou inverossímeis (tanto faz serem ficcionais ou não), mas por suas tramas e seus personagens exemplificarem perfeitamente o contexto histórico no qual estão inseridos, e as ações e reflexões deles se revelarem fundamentais às discussões essenciais da época. São mitos instantâneos, não importa se estampados nas capas de jornais, projetados em películas cinematográficas, propagados por satélites de TV ou rascunhados nas páginas de um livro. 

Essa história é um símbolo. Não apenas abstrato, por tratar de conceitos essenciais à nossa contemporaneidade (como a liberdade de expressão e o direito à privacidade), mas também concreto, ao revelar as operações secretas de vigilância civil por parte de governos democraticamente eleitos, através de instituições que, embora teoricamente regulamentadas pelos parlamentares de seus respectivos países, não se reportavam a ninguém. 

Um homem com alguns pen-drives, um jornalista estadunidense autoexilado no Brasil, e um jornal britânico em sua recém-inaugurada filial novaiorquina — eis a trindade central do mito em questão. Ou, em nomes próprios: Edward Snowden, ex-administrador de sistemas da Agência Nacional de Segurança dos EUA (a NSA); Glenn Greenwald, jornalista e colunista político conhecido por criticar duramente as mais obscuras práticas do governo pós-11/9; e o The Guardian, um dos maiores jornais britânicos, nesse caso operando principalmente através de seu braço nos EUA. 

A interação desses três vértices revelou, através da publicação de arquivos confidenciais da NSA e de suas parceiras, um esquema além-orwelliano de vigilância e espionagem governamental, que inclui grampear cabos submarinos de fibra ótica, hackear os servidores de grandes empresas de comunicação (Google, Yahoo, Apple, etc) e até mesmo interceptar imagens das webcams de notebooks particulares. Seus alvos, embora incluíssem diversos chefes de Estado (como a premier alemã Angela Merkel e a presidente brasileira Dilma Rousseff), não eram necessariamente pessoas de eminência política. Nós, insuspeitos cidadãos de diversos países, tínhamos (e temos) nosso tráfego de dados constantemente interceptado pelas agências de segurança anglofônicas, em prol de sua “guerra ao terrorismo”. 

Oscilando entre a narrativa romanceada dos melhores livros de espionagem e a reportagem jornalística de fatos de indisputável interesse público, Os Arquivos Snowden mostra que o jornalismo ainda cumpre uma função essencial à sociedade, quando realizado com critério, ética e coragem. Na atual “era da informação”, onde grande parte de nossas comunicações se faz através da internet, talvez não seja outro o poder que se proclame resposta à retumbante pergunta de Juvenal: Quis custodiet ipsos custodes? (Quem vigia os vigias?). 


Rio, 28 de fevereiro de 2014

Os Arquivos Snowden foi lançado no Brasil pela Editora LeYa, com tradução de Alice Klesck e Bruno Correia.

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