segunda-feira, 10 de março de 2014

FILME: "Spring Breakers" (2012), de Harmony Korine

Ontem: assisti Spring Breakers pela internet. Hoje: fui surpreendido pelo fato de que todas as pessoas com quem comentei sobre o filme me disseram ou tê-lo achado ruim ou ter ouvido alguém dizer que o achou ruim. Foi essa total ausência de qualquer comentário positivo fez minha surpresa, já que achei o filme simplesmente uma obra-prima audiovisual.

Audiovisual. Aí está. O que me fascinou não foi tanto a construção dramática dos personagens ou a trama desenrolada ao longo do roteiro, mas sim a experiência estética de imagem e som — propiciada principalmente pelo entrelaçamento da fotografia de Benoît Debie (ora berrando em artificiais cores néon, ora permitindo que a natureza docemente pintasse a tela) com a trilha sonora de Cliff Martinez e Skrillex (alternando entre a melódica precisão de trilhas incidentais clássicas e a alucinante música eletrônica das raves).

Além da trama e aquém da sensorialidade, a experiência afetiva humana também é belíssima, e o elenco é todo certo e necessário — embora duas coisas se sobressaiam: a atuação absolutamente genial de James Franco e a sensibilidade do trabalho de Selena Gomez. Ele, na pele de um antiheroico traficante/rapper que toca piano e mantém pilhas de dinheiro sobre a cama, esbanja maneirismos e sotaques e descontroles. Ela, como uma adolescente sensível e infeliz, indecisa entre as carolices de um cristianismo carismático meio neopentecostal e as dionisíacas rebeldias pulsantes de suas amigas e de sua geração, transborda em emoção e veracidade e questionamentos. 

No fim das contas, o filme é primoroso justamente pela harmonização de contrastes magistralmente orquestrada pelo diretor Harmony Korine. Tanto em imagem quanto em som, agressão e afeto alternadamente se chocam e se complementam para oferecer um vislumbre por detrás do véu da juventude contemporânea.

[No Brasil o filme foi lançado diretamente para DVD com o duvidoso subtítulo de "Spring Breakers - Garotas Perigosas".]

{Abaixo o vídeo de uma cena do filme, completamente fora de contexto mas sensorialmente útil para exemplificar as verborrágicas elucubrações acima.}

3 comentários:

V disse...

Adorei!!

Blog da Érica disse...

Parece bobinho, ao mesmo tempo que parece ser muito bom. Coloquei na minha lista "para assistir".

Anônimo disse...

Eu já havia visto o filme quando li sua resenha, porém é claro que pretendo agora assistir novamente abordando todos os temas que você propôs. Não tinha reparado em detalhes, tinha apenas visto por ver, pois gosto do elenco e coisas assim. Sabe, você é uma de minhas inspirações, de que vale a pena pensar, as vezes sinto que isso é em vão, mas venho em seu blog, leio seus textos e isso me inspira a ser um ser humano melhor. Muito obrigada, e parabéns por todo seu trabalho e seus talentos.
Bjs, talvez um dia a gente se encontra :D