domingo, 23 de março de 2014

Gravid-

(para meu amigo e irmão Matías de Stefano)

De Gravidade, o que mais me fica – além do maravilhamento pela absolutamente brilhante direção de Alfonso Cuarón, do assombro com a perfeição dos efeitos visuais da companhia britânica Framestore e da admiração pelas intensas e imaginativas atuações de Sandra Bullock e George Clooney – são reflexões intelectuais e afetivas sobre a atual condição da humanidade. 

Fomos propulsionados ao espaço infinito de um universo sem propósito, ao qual chegamos devido a um impulso filosófico e científico a um só tempo construtor de astronautas e destruidor de deuses. A pouca vitalidade dessas novas imagens e ideias, trazidas pelos renascidos concretizadores humanos desse impulso para substituir os símbolos de outrora, torna frágeis suas cordas-fidelidade às naves-conceitos nas quais gravitamos em torno e à distância do planeta. Apesar de tanta tecnologia, ou na verdade justamente por causa dela, inesperadas nuvens de detritos (também tecnológicos) podem facilmente romper nossos cabos-crenças e destruir nossos satélites-personalidades. Nos vemos, então, à deriva – não em um Cosmos, mas em um Caos. Tentamos diálogo primeiramente com um Deus-Houston que não nos responde (e nem sabemos se nos ouve); posteriormente buscamos contato com qualquer divindade-estação que se apresente à vista; finalmente, logramos uma precária conversa à distância com outro ser humano, que não nos compreende e não nos vê – e nem nós a ele. Decidindo morrer para o outro, desistimos de qualquer possibilidade de interconexão, e apagamos as luzes ao fechar os olhos da alma. Ainda assim, há esperança: no frescor da subversão e transcendência de valores e regras rigidamente impostos, talvez possamos descobrir que a forma de nos propulsionar adiante talvez não seja outra do que a de aterrissar. Abre-se, então, a possibilidade de sermos gravitacionalmente chamados à readmissão atmosférica. Para isso precisamos ter nossas mentes-cápsulas purgadas pela incandescência do próprio planeta e enfim imergirmo-nos no útero oceânico da Terra, sendo paridos em um desconhecido litoral qualquer, no qual herculeamente nos esforçaremos para nos pôr de pé. Resta-nos, apenas e sempre, seguir caminhando junto ao planeta – do qual somos partes conscientes e, quiçá, conscientemente partes. 

Rio, 23-3-2014

Um comentário:

Anônimo disse...

Sabe quando você pensa em alguma coisa muito importante, mas para porque acha que está viajando muito? Foi o que aconteceu comigo quando vi esse filme, mas agora percebi que não estava viajando, só minha mente não queria aceitar a verdade, enfim Obrigada por me inspirar.