domingo, 6 de abril de 2014

Araras

(Sei que não estou lá
mas sinto como se estivesse.)

Como se aí aí não fosse, mas aqui.
Como se aqui não aqui sentisse, mas aí.

Que minha alma a teu entorno se transporta:
teus aromas pulsantes de frescor da vida, caldeirados pelo vento leve,
tuas ásperas e úmidas lascas de terra e cheiros,
teu barulhar sempre novo do riacho em pedras pequenas,
teu calor florido de um Sol que te cozinha o vale aberto...

Qual anti-Caeiro,
(que este nunca está onde não está)
porventura encontro-me imaginalmente onde não estou
quando impedido sou de estar em corpo
e a alma faz, por si, viagem.

Que não em outro espaço senão a alma
cabe-me tua real existência inteira.
Que não em outro tempo senão a alma
existem minhas memórias tuas de estações todas.
Que não em outro peito que não a alma
existe amor.

O próprio Caeiro,
quando amou e se julgou doente,
transportou-se aonde não estivesse
e lá esteve.

Eu, contrário, me curo em ti:
viajo-te porque te amo.

Rio de Janeiro, 6 de abril de 2014

Um comentário:

Débora Silva disse...

Muito linda. Tem alguma inspiração específica ?