domingo, 11 de maio de 2014

Reza do crematório

Diante de nós,
irmãos,
está onde estive.
Corpo.

Pele, carne, ossos. Roupa.
Olhos, dentes, pêlos. Jóias.
Toque, sôpro, chôro. Outros.

Nos lábios de outrora,
há silêncio.
Repouso, nos cílios de ontem.
Soltura nos músculos todos.

E pessoas em volta.
E imagens tantas entre pessoas!
Pessoas dentro e fora...
É o fim da morada, pessoa.

A hora é chegada.
Valete, corpus.
Valete, corpus.
Valete,
corpus.

...

Faísca.
Chama.
Fogo.
Sobe, lambe,
ruge,
queima.

Queima.
Lenhas por ossos, palhas por pelos, chamas por olhos. Queimam.
Queimo.
Queimar.

Em torno
luzes quentes pintam as faces
inconstantes
incognoscíveis
imperturbáveis
definitivas

Nos olhos de quem vê
consome-se a carne em brasa.
A cinzas reduzidos, órgãos.
Os poros exalam
fumaça
e fim.

Vida é chama que se consome a si mesma.
Na matéria surge,
da matéria cresce,

como matéria
morre.

Diante de vós,
filhos,
está onde estais.
Pó.

Rio, 11 de maio de 2014