segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Som e...

As luzes lentamente se apagam, indicando o iminente início da peça, e juntamente com a luminosidade decresce o ruído. A plateia se aquieta, e rapidamente tem-se não apenas o breu mas o silêncio... 

Ou quase. De algum ponto à minha esquerda percebo um som inusitado, como um chiado grave e trêmulo. Nos poucos segundos que antecedem a primeira cena do primeiro ato de “The Two Gentlemen of Verona”, noto que o tal chiado surge e desaparece a intervalos constantes, o que me faz pensar que sempre esteve lá, apenas suave demais para ser ouvido. Agora, porém, com o silêncio de todos os outros, sua tímida presença é quase um grito. Mas minha curiosidade é rapidamente dissipada pelo início do espetáculo – e durante alguns segundos até esqueço o ocorrido. Mas eis que, na primeira pausa do diálogo entre Proteus e Valentine, ele está lá, constante e ruidoso como um enviado puritano contra a plena fruição do teatro, perturbando não apenas a mim, mas a muitos outros espectadores (vejo que cabeças começam a se virar por todos os lados, procurando a origem da distração). O que poderia ser aquilo? Um sistema de ventilação defeituoso? Algum aparato técnico do próprio teatro? Alguém adormecido, ressonando incessantemente? As duas primeiras alternativas parecem quase impossíveis, pela qualidade do teatro no qual estamos; a terceira, improvável – não apenas pela qualidade do espetáculo mas também por sua recém-iniciada duração. Não sem esforço, aos poucos vou conseguindo (e as outras pessoas também, pela diminuição no número de viradas de cabeça por minuto) lidar com sua presença impassível, enquanto no fundo de mim nasce uma determinação, pequena porém irremovível, de averiguar durante o intervalo a origem da perturbação. 

Quando as luzes se acendem, indicando vinte minutos de pausa entre a primeira metade da peça e a segunda, estou mais determinado do que nunca. Imediatamente, curiosos e contrariados, meus olhos e ouvidos perscrutam toda a região de onde parecia vir o som. Certamente haveria alguém com quem reclamar do acontecido: os ingressos para esse espetáculo eram preciosos e concorridos – e, melhor ainda, com certeza outras pessoas fariam a mesma reclamação, o que iria pressionar os funcionários do teatro a encontrar rapidamente uma resolução. Em meio a essas e muitas outras elucubrações silenciosas, meu olhar veloz estaca. O ruído vem, sim, de uma pessoa. Um senhor, para ser mais preciso. Atrás e abaixo dele vê-se o símbolo azul e branco que indica ser a área reservada a uma cadeira de rodas. Ele está reclinado, cobertores sobre seu corpo, o olhar atento ao palco nu que acaba de se acender. Em torno de seu nariz e sua boca, uma máscara verde projeta um tubo também verde que desce em direção a um aparelho anexado ao lado de sua cadeira. Seu peito infla grandemente em perfeita sincronia com o surgimento do chiado grave e trêmulo, enquanto sua cabeça se inclina para trás. Quando o ruído some, seu tronco novamente se esvazia e a cabeça retorna ao normal. O som é o de sua respiração. No assento ao lado dele, uma mulher, robusta, toda de preto, cabelos irretocavelmente penteados, talvez sua filha ou sua enfermeira, se levanta. Ela, com todo o cuidado e paciência, dá início a um ritual de quase-coreografia médica, com botões, máscaras, saliva, pescoço, toalha, lençóis... Quando termina, meus olhos e ouvidos mostram inequivocamente que ela se ajoelha ao lado dele, toma suas mãos nas dela e pergunta, em inglês, se ele está gostando da peça. Aguço minha percepção (ou será que a ultrapasso, rumo ao invisível e inaudível mundo do interior do outro?) e meus olhos ou imaginação ou empatia vislumbram, claro e nítido como a presença dos deuses, um esgar de sorriso em seus lábios que indica Sim. Volto a mim. Envergonhado e confuso, envolto pelas paredes do Royal Shakespeare Theatre, silencioso e solitário em meio a agitação que novamente toma conta da plateia diante do premente recomeço do espetáculo, seco os olhos, ainda ou novamente sentado. Sei que, a partir de agora, o ruído não mais vai atrapalhar minha experiência no teatro, mas tão somente engrandecê-la. 

A peça, brilhante, termina e nossos aplausos inundam o teatro. Os meus, secretamente, não se dirigem apenas ao palco. Fecho os olhos e vejo uma fantasia que se ergue como desejo, ao mesmo tempo súplica e meta, de dizer-lhe, olhos nos olhos: eu queria amar o teatro tanto quanto o senhor.


Stratford-upon-Avon, 16 de agosto de 2014

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Interver

"i carry your heart with me(i carry it in
my heart)" 
- e e cummings

Que levamos conosco quem amamos
sabemos.

Mas esquecemos
que o outro é também um eu

a quem nos ofertamos
(como outros)

e, aceitando, nos leva consigo. 

Espalhamo-nos pelo mundo, todos.

Cada despedida nos encontra menos
e mais.

A cada encontro
de nós se despede
um pedaço

e é outro que chega.

Mas, contrário ao que se pense,
de si quanto mais se dá mais se tem.
Somos mais nós mesmos -
e inteiros apenas -
quanto mais nos outros,
quanto mais eles em nós.

Eis a eternidade que almejo:
viver na alma 
daqueles que me levam em si.
Que eles, em mim,
já são todos imortais.



Londres, 6 de agosto de 2014
* modificado em 8 de agosto de 2014
*modificado em 22 de dezembro de 2015