quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Prefácio para um conto (ainda) não escrito

Talvez se tenha movido a esse fim uma intangível e luminescente mão divina — dizem as más línguas que ocasionalmente se pode avistar, suavemente delineados contra um pano de fundo pontilhado por estrelas e membros e órgãos do corpo do mundo, seus dedos de supernova esfumaçada em ação — e, num canto longínquo de um universo que pulsa, se tenha ouvido, por silentes transações insondáveis, o comando orgânico da própria vontade-própria da existência em si: sutil síntese que é, não lhe saberíamos perscrutar os desígnios de ciclo e cosmos desde nossa ainda e sempre pequena lente humana. Talvez, apenas, um sôpro — e o devir tome sua direção, único e imperturbável como a nau que parte do porto vazio. Seguimos, nós, duplamente súditos: de um lado, impossibilitados de confirmar a origem do movimento de cada coisa; de outro, incessantemente impelidos pela irresistível corrente do rio que existe e nos leva concretamente ao redor e adiante. Talvez nos caiba, tanto e tão-somente, a descoberta criativa do sentido da vida, poesia do cosmos da alma, invenções a partir daquilo que nos dá o todo. Talvez, talvez, talvez, talvez... Os muitos pretéritos possíveis, dos quais vive sempre prenhe o ventre de tudo aquilo que não sabemos, nos acenam, ameaçadores e lindos, da base do monte que nunca subimos.

Rio, 24 de setembro de 2014 (Sol a 2º de Libra)