terça-feira, 28 de outubro de 2014

A eleição nos tempos da internet

Apesar da velha oposição entre tucanos e petistas, esquerda e direita, alhos e bugalhos, Flamengo e Fluminense, Carminha e Nina, Deus e o Diabo, Ser ou Não-Ser, o processo eleitoral que acabamos de vivenciar lidou sim com um novo fator (que fez uma grande diferença): a internet. 

Se quatro anos atrás as redes sociais não foram, em época de eleição, sequer alvo de comentários na vida fora delas, dessa vez foi a vida fora delas, junto com a eleição da época, que quase não deixou de ser comentada dentro delas. Amizades foram desfeitas e refeitas, velhos colegas tornaram-se arqui-inimigos, antigos desafetos se descobriram irmanados pela posição política, e por aí vai. Mas o que será que se pode depreender de tudo isso? 

Primeiramente, é claro, que há um saldo positivo. O deputado federal reeleito Jean Wyllys (PSOL-RJ), por exemplo, que nas eleições de 2010 havia obtido algo em torno de 13 mil votos, esse ano teve mais de 144 mil eleitores – e sua campanha, de parcos recursos, utilizou amplamente as redes sociais e as ferramentas virtuais de compartilhamento de informações e imagem (inclusive ao vivo, através de comícios domiciliares transmitidos por webcam). Acredito que esse mesmo fenômeno possa ser observado por todo o país em outras campanhas para cargos proporcionalmente eleitos. Mas também os candidatos a cargos majoritários usaram e abusaram de suas respectivas páginas na rede, com o saldo de compartilhamentos e comentários muitas vezes alcançando a casa dos milhões. Acho seguro afirmar que nunca se falou tanto de política no Brasil. Ponto pra nós todos — e pra internet. 

Porém, como quantidade e qualidade são fatores distintos e muitas vezes inversamente proporcionais, os ânimos acirrados de uma campanha presidencial disputadíssima acabaram levando eleitores país afora a propagar não apenas discursos muitas vezes levianos ou agressivos, mas também informações inverídicas ou mesmo tendenciosas. Não faltaram estatísticas oriundas de fonte nenhuma, dados coligidos por instituto algum, compartilhamento sério de notícias falsas do jornalismo humorístico, e até mesmo citações atribuídas a quem não as proferiu. 

Pior: na semana anterior à realização do segundo turno circulou a ridiculamente falsa notícia de que, devido ao grande número de eleitores, o TSE havia determinado que os votantes de cada partido comparecessem às urnas em dias diferentes. (Vale refletir que provavelmente houve quem acreditasse, apesar do ridículo da proposta — e que isso constitui crime federal.) Ainda pior: na madrugada imediatamente anterior à votação, as redes sociais e os aplicativos de comunicação virtual foram inundados pela notícia da morte de um dos delatores do esquema de corrupção dentro da Petrobras (ele teria sido envenenado e o fato estaria sendo acobertado tanto pela Polícia Federal quanto pelos médicos do hospital aonde ele fora encaminhado) — e normalmente as mensagens terminavam solicitando encarecida ou ameaçadoramente que o recipiente a compartilhasse com o maior número possível de amigos, pois a mídia estaria “impedida” de notificar a população. O delator segue vivo, vítima tão somente de sua condição de cardíaco. 

Esse inegável salgo negativo não é exatamente algo novo; mas o fato de uma mesma discussão ter tomado praticamente todo o país, a nível virtual, ressaltou de forma pungente e nova as mesmas duas armadilhas sempre presentes no mundo virtual: anonimato e anarquia. É quase irresistível. A possibilidade de escrever e compartilhar algo a partir do computador, em nossos quartos ou escritórios, ou do celular, conosco literalmente o tempo todo, nos garante a falsa e nítida sensação de que não estamos realmente implicados no que fazemos na internet, cria a ilusão de que uma persona virtual se interpõe entre nós e nossas ações virtuais, de que não há reação ou fiscalização pública sobre o que virtualmente se faz. Mas é justamente o contrário: tudo que escrevemos, publicamos ou compartilhamos na internet é rastreável a nós e permanece armazenado nos registros de servidores mundo afora. Atualmente, as polícias de quase todos os países possuem delegacias especializadas em crimes virtuais, e muitos sistemas legislativos já estabeleceram leis e diretrizes para a interação virtual entre seus cidadãos. O Brasil se inclui em ambos os casos. Já não são apenas os membros da sociedade que estão presentes na internet, mas também as estruturas sociais. Nada mais justo e necessário — quando feito dentro dos limites legais publicamente estabelecidos. 

Como qualquer ferramenta que recebemos sem manual de instruções, é natural ainda não conseguirmos compreender plenamente as implicações do mundo virtual. Mas é também imperioso que nós comecemos a perceber o quanto esse mundo virtual é, hoje, também um mundo real — que nele existimos como cidadãos, com direitos e deveres e leis; que dele podemos fazer o que quisermos; e que ele só será o que dele pudermos fazer. E acho que não há momento melhor para começarmos a tomar consciência disso do que agora, no respiro que se segue ao torvelinho das últimas semanas, durante as quais muitos de nós abusamos, de forma inconsequente, das maravilhosas e quase-infinitas possibilidades que nos são presenteadas pela internet. 

Rio de Janeiro, 28 de outubro de 2014

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