segunda-feira, 6 de julho de 2015

Eu amo o Eduardo Cunha

Não é piada. Eu juro. Se ele não representasse tudo aquilo que há de mais repugnante no atual cenário político brasileiro, poderíamos ser grande amigos. Best Friends Forever. I S2 Cunha.

Tá bem, não é pra tanto. Mas, ainda assim, sou realmente grato a ele. Não, não é porque seu perfil adunco me traz à mente os bons tempos de infância, onde a maior expressão do mal era um feitiço da Bruxa Onilda. É porque Eduardo Cunha hackeou o Brasil. E não de um jeito bacana, estilo Anonymous, “poder para o povo”, Edward Snowden, etc. Pelo contrário – suas intenções parecem ser as piores possíveis. Através de manobras regimentais e alianças escusas, o digníssimo presidente da Câmara tem feito prevalecer os desejos de seu grupo político-religioso-empresarial.

“Nada de novo”, vocês me dirão. E estão certos. Porém (ah, porém...) os antecessores de Cunha, embora talvez atuassem nos bastidores de forma igualmente vampiresca, pareciam tentar manter publicamente a boa e velha imagem da cordialidade brasileira. Satisfeitos com o que sorviam das tetas da república leiteira, guardavam certa distância de polêmicas e embates violentos, mantendo a gangrenosa engrenagem do sistema em funcionamento para todos. Mas não ele. Não agora. Eduardo Cunha quer a vaca inteira – mal-passada, de preferência.

Habilidoso hacker político que é, ele soube aproveitar a brecha no firewall do país, aberta pela instabilidade decorrente dos ânimos acirrados presentes desde as manifestações de 2013 (e especialmente após a disputa eleitoral de 2014). Fez-se presidente da Câmara prometendo castelos e carruagens aos nobres deputados; e em seu primeiro semestre no cargo já conseguiu aprovar projetos polêmicos e engatar uma perigosa queda-de-braço com o Poder Executivo. Não há duvida de que a Força é grande nesse homem. Mas isso não é garantia de nada – vide o fim de Darth Vader: aleijado, arrependido e careca.


"Luke, eu sou seu presidente da Câmara."

OK, por enquanto muitos motivos para odiá-lo e nenhum para amá-lo, vocês devem estar pensando. Mas aí é que se enganam. Para amar Eduardo Cunha, basta relembrar que a separação dos Três Poderes, a multiplicidade das casas legislativas, a enorme quantidade de deputados e os diversos mecanismos de fiscalização e transparência compartilham um mesmo objetivo básico: evitar que alguém consiga fazer o que ele está fazendo.

Em sua ganância insaciável, Cunha torna mais explícito do que nunca o nível de corrosão do atual sistema político, trazendo à tona suas falhas estruturais e brechas de segurança, das mais óbvias às mais sutis. Suas vitórias têm sido a maior prova da impotência e da ineficácia de várias instituições republicanas brasileiras. Mas não são de todo mal.

Afinal, hoje em dia é comum uma empresa contratar um hacker (com a maior ficha criminal possível), cuja função é passar o dia tentando invadir o próprio servidor da companhia. Isso serve para descobrir falhas de segurança e avaliar a precariedade das atuais estruturas diante dos novos sistemas e táticas disponíveis. Mas é uma relação arriscada. Não há quase nada que impeça um hacker mal-intencionado de tomar o controle do sistema e fazer o que bem entender.

Ainda assim, eu não acho que a posição de Cunha seja sustentável, pois sua ascensão se deu ao mesmo tempo em que houve um grande (e muito recente) fortalecimento dos vários mecanismos de fiscalização e punição, do qual as várias Operações com títulos cinematográficos são apenas a ponta mais visível. Santa coincidência. Ou talvez nem tanta coincidência assim.

Quem sabe Eduardo Cunha não seja apenas a expressão mais ostensiva de uma última tentativa de sobrevivência por parte de um tipo política que, em pleno processo de decomposição, tenta se apegar às pilastras mofadas de um edifício carcomido. Semiconscientes da demolição iminente, seus dedos tentam agarrar o parapeito da janela mais próxima, as unhas encravadas no mármore em um último esforço de permanência e dominação.

Em vão. A evolução é inconstante e imprevisível, mas inexorável. Resta apenas a esperança de que, após sua queda, o corpo estilhaçado no asfalto do passado tenha involuntariamente conseguido um único mérito a ser lembrado pela posteridade desse país: o de ter reaberto nossos olhos para a fragilidade das instituições democráticas brasileiras, ainda tão jovens e tão facilmente sequestráveis por indivíduos com muita habilidade e nenhum escrúpulo. Então, de olhos bem abertos e lições bem aprendidas, talvez possamos modificar estruturas sociais e mentalidades coletivas, a fim de resguardar o futuro de nosso belo e imenso país.

No fim, Eduardo Cunha será abandonado por seus asseclas. Na política a queda é sempre solitária, mesmo quando coletiva. Certamente aqueles que agora se denominam aliados não estarão presentes em seu enterro. Será um velório solitário, acompanhado por meia dúzia de familiares. Mas eu estarei lá, triste e agradecido, carregando no colo o anti-filho de suas ações, uma criança saudável e temporária, cujas feições ainda não podemos ou não ousamos vislumbrar.


Rio, 26 de julho de 2015

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